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  […] As Escrituras dizem que não devemos fazer uma imagem (Dt 5:6-9) que se torne objeto de   nosso culto, tampouco um templo, um altar, uma tradição, uma teologia, uma metodologia estratégica ou um líder personalista.

Nós o encontramos para perdê-lo. Ninguém pode aprisionar ou conter Deus, pois ele habita “num lugar alto e santo, mas habito também com o contrito e humilde de espírito” (Is 57:15). O Senhor, que está infinitamente além de nossa compreensão, revela-se um Deus pessoal que se relaciona amorosamente com a humanidade.

Esse é o mistério de Cristo em nós: um Deus que habita nos céus, mas também no coração. Um Deus que está longe e perto. Quanto mais perto chegamos, mais longe ele fica; quanto mais longe ele fica, mais perto está. A espiritualidade cristã implica esse ir e vir da revelação da presença de Deus, a busca para encontrá-lo sem que possamos segurá-lo. Temos comunhão com ele, mas não podemos detê-lo, pois “o vento sopra onde quer.[…]”.

Deus não cabe em regras, técnicas, teologias rígidas, pacotes, tradições, experiências, ideologias, fórmulas, pragmatismos, planos, doutrinações. O mistério de Deus não cabe em esquemas humanos. Segui-lo significa não se adiantar a ele, mas ser conduzido serenamente por onde se desconhece, ser surpreendido pelo caminho que se abre. O mundo das certezas é incompatível com o mistério de Deus, que se revela no íntimo da alma humana em uma relação de amor.

No caminho de Emaús (Lc 24:13-35), os discípulos que estiveram com Jesus não o reconheceram. A expectativa de vê-lo como o Rei dos reis os impedia de vê-lo como o Servo Sofredor. Jesus lhes expôs as Escrituras e seus corações arderam, intelecto e emoção juntos; ainda assim, não o reconheceram. No entanto, diante do gesto de Jesus, que “estava à mesa com eles, tomou o pão, deu graças, partiu-o e o deu a eles”, seus corações se abriram.

A verdadeira espiritualidade reside na santidade do gesto simples do cotidiano. Em Jesus Cristo não há megalomania, grandiloqüência ou extravagância, mas a simplicidade do gesto humano, ternura e firmeza. Ouso afirmar que a verdadeira vida cristã significa sermos menos espirituais e mais humanos.

 

Osmar Ludovico. In: Meditatio

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