“Aquele que dança tem a relação de viver o sagrado em si” .– Caroline Stroparo

Quando postei o texto “Nietzsche e o Deus que dança”, do Felipe Garcia não pensei que fosse dar o que falar. Poucos textos são tão comentados no meu blog, contra ou a favor. Eu mesmo postei o texto porque achei interessante ideia oposta, que foi enxergada por alguns dos comentaristas com mais violência e veemência ou com mais doçura e simplicidade.

Na verdade, seria uma boa tentar desconstruir o mito do Nietzsche ateu-matador-de-deus e uma boa seria começar esse texto refletindo de forma inversa ao que o Felipe mostrou em seu texto.

De fato, Nietzsche só acreditaria em um deus que pudesse dançar. E ele estava certo. Em nenhum momento há uma contestação de que Cristo dançava, ou a graça, mas sim que o deus agonizante e, segundo a concepção hegeliana, criado à imagem e semelhança do homem,  não dançava.

Temos aí um paradoxo: ou Nietzsche era literalmente ateu e não enxergava a dança divina na história (essa concepção bem trabalhada pelo Felipe) ou Nietzsche sabia que estava morto ou “morrendo” um deus humano,  que entre tantas outras faltas, não dançava ao som da música, da natureza.

É essa a hipótese mais clara e plausível, partindo do pressuposto que Nietszche fora cristão luterano, assim como Kiëkergaard, ambos desiludidos e desencontrados do sistema religioso de seu tempo. Ele sabia do que falava, e a condição institucional da igreja continua idêntica em nossos dias.

A leitura de Nietzsche, penso eu, não é uma leitura onde impere a logos, mas sim a ontologos – não a lógica mas a ontologia –  e nesse sentido, o mito do deus que dança pode ser bem compreendido se observarmos tanto à quem ele escreveu naquela época, quanto a quem são dirigidos seus escritos nos nossos dias.

Partindo de uma microcompreensão, o ciclo histórico se repete sempre; numa macrocompreesão, podemos ver que a essência humana produziu esse deus a quem Nietzsche matou, ou disse estar morto; assim,observando a essencia humana, temos de forma linear que o mesmo deus essencialmente humano de ontem é o mesmo deus essencialmente humano de hoje.

Nietzsche falou contra ele e seus fiéis, não contra o Deus essencialmente divino-humano, cuja compreensão  detona os preceitos de um deus imago homo e dá lugar ao homem imago Dei.

Nietzsche, ao dizer que só acreditaria num deus que dançasse, só estava afirmando de forma ponendo tollens que, o deus morto dos homens, por ser morto é imóvel, contudo há um Deus-desconhecido que dança – até hoje – mas vocês, homens que são, não O conseguem enxergar.

Sobre o mito do ateu-matador-de-deus, é bom que continue existindo para que possamos através dessa imagem iconoclasta o verdadeiro Deus, o Deus desconhecido, e que com esta figura, sejamos nós os matadores dos deuses imago homo.

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