Natal,  2010.

Kathleen,

Mais uma vez eu te escrevo.

Para desejar mais uma vez, talvez que esse mail se tornasse uma carta e que na tua solitude e somente nela, pudesses encontrar a mim e a minha ausência.

Queria que através dela nossas mãos e, dedos com suas pontas, pudessem se tocar uma à outra e nesse exercício pudessem as nossas almas se encontrar num gesto de comunhão silenciosa e solitária num momento tão nosso que sua intimidade a ninguém mais pertence. Somente a nós e às nossas [jovens] memórias.

Escrevo para me habituar a escrever cartas.

Escrevo para dizer que tenho saudade de tua presença por perto.

Que tenho sentido falta até das tuas discordâncias quanto ao modo sob qual o mundo foi criado… Saudade das corridas juntos e dos momentos de descoberta empreendidos por nós na esperança de conhecermos mais um ao outro, através da conversa atraente e, por certo, desbravadora. Caçadora de nós, ou poderia dizer de mim, tomando as palavras de Milton.

Escrevi para dizer que ontem, à noite em especial, perto das vinte e três horas, estive a me lembrar de você. Havia uma lua nascente que brilhava como se a dizer “Estou. Sou”. E o que isso me traz de especial? O dia em que correndo, falávamos sobre a poética da lua e numa síntese, ainda que capenga, te reconstruí uma canção do Gladir, Claire de la lune: “A lua tem muito a nos ensinar: com seu brilho, não nos cega na noite; orienta o caminho dos tropeiros e dos andantes, inspira os poetas,  prateia os mares e ilumina a noite dos namorados”.

Me lembrei daquela noite, que não era tão romântica para se mencionar a lua, mas num repente, como num estalar de dedos ou numa continuação de contas de rosário, dialogávamos sobre esse lindo satélite natural da terra [eu não poderia deixar de fazer menção a essa ironia nossa, não é?].

Charmosa e imponente, não se importava em dividir o celeste salão onde debutava sua beleza com a exuberância fragmentada, porém não menos importante, das brilhantes estrelas.

Era como se sua lembrança estivesse um pouco mais perto; sua voz soasse um pouco mais presente na minha lembrança e seu olhar, castanho claro pelo brilho das luzes noturnas agora diminutas, estivessem a me fitar, ainda que não diretamente como uma criança tímida  ao ser elogiada por suas notas na escola. Nada me roubava aquele momento e juntamente com ele, a tua lembrança.

Não sei quando você vai ler isso, ou mesmo se vai ler isso, diante da infinidade de e-mails a serem respondidos com maior urgência, provavelmente.

Estou a caminho de casa, esperando te encontrar mais uma vez, perceber o teu olhar, talvez cansado por mais alguma longa viagem, sonolento como de bebê ao ser acalentado já mergulhando nos braços de Morpheus.

Quisera eu estar nesse momento ao teu lado, tocando a pele de suas mãos e buscando os teus olhos agora, talvez atentos na leitura dessas linhas, ou mesmo entorpecidos pela letargia provocada pelo dia de atividades exaustivas deum brincar com uma criança, por exemplo…

Espero te encontrar mais uma vez, compartir um pouco mais do espaço da biblioteca de minha caverna, tão cheia de livros e teias, austera e larga sob a luz dum lustre art-nouveau, igualmente empoeirado e com tantas teias, dado o não uso pela concepção de não importância para outros a não ser eu mesmo.

Escrevo-te tudo isso só para enfeitar e enfrentar a didática dor causada pela ausência tua e para adornar a essa minha agridoce nostalgia que os poetas traduzem como saudade.

Em noite fria de agosto e sob os auspícios de “até depois”, do Beto Guedes, subscrevo-me.

Att.

Jônatas Souza de Abreu

Contexto:

Estava eu em Natal, padecendo de uma faringite, quando me veio algo dolorido no peito que eu não sabia o que era; ao mesmo tempo, a imagem dela não saia de minha cabeça. Depois de uma carta posterior, que era  a minha “carta de intenções” resolvi tomar coragem para pedí-la em namoro. Até ela dizer “sim” às minhas investidas, foram 25 dias de tensão de minha parte e da dela.  E essa carta, sem mesmo eu saber,  me rendeu muita saia-justa…

Hoje, caminhamos para quase um ano de um encontro lounge longe de terminar… Concretude na expressão da felicidade.

Essa foi a primeira carta que escrevi pra ela, deliciosa e despretenciosamente, num rompante de saudade da simples companhia dela, rendendo homenagens ao seu significado para mim.

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