Eles se gostaram. Eles se amavam. Ela, doce e amável, de temperamento leve e descontraído, poderia ser chamada de exemplo perfeito da encarnação do romantismo natural de uma juventude passada. Talvez até acusada de indiferente e aparentemente falsa, à opiniões equivocadas, pela sua leveza e riso constante, era – entretanto – muito sincera com o que pensava e com quem amava e fazia isso muito bem nas suas proporções. De vida e de alma. Compreensiva mas não sempre, tinha uma “carência” natural e o seu jeito, sempre alegre, descontraído e em certa medida, um pouco cínico, denunciava isso; o que fazia com que cativasse a memória e a alma de qualquer espírito paterno. Elegante, de uma gentileza e discrição pouco comuns à sua idade. Dada às artes musicais, literárias e gastronômicas, se esmerava nas duas últimas, o que fazia dela diferente das neofeministas do presente século. Uma alma cara, talvez distante de pensamentos e olhares, invejada por uns, amada por outros. Essa era a sua sina djavaniana de ser.

Ele era um sujeito diferente. Vívido e plácido, ao mesmo tempo em que poderia ser solitário e taciturno. Pouco bravo. Cínico, segundo alguns, era uma personalidade diferente da dos homens comuns, se distinguia justamente por gostar da leveza da poesia, música, artes gastronômicas e ao mesmo tempo da complexidade dos números e das cabeças. Era a encarnação daquilo que qualquer mulher poderia esperar de um homem, principalmente nos quesitos de música e gastronomia, o que assustava muita gente. Sincero no que fazia e principalmente, no que pensava e dizia, corria o tempo inteiro o risco de ser chamado de sarcástico numa brincadeira, irônico numa conversa, mesmo que estivesse falando sério. Não que ele não fosse. Só não era sempre. Compreensivo, muitas vezes por gostar do “oficio psiquiátrico”, era uma alma cara; fino e elegante, ainda que um tanto desajeitado na forma física e na escolha de  algumas de suas roupas. Anjo amante-trovador de “costas largas”, bem ao estilo Buarquino, quem diria que um dia fosse encontrar o que julgava ser apenas um ideal de mulher…

Um dia eles se encontraram. As duas almas mais improváveis da humanidade se descobriram num restaurante simples, na hora do almoço depois de terem vindo de seus turnos universitários sob um sol de rachar. Encontraram-se e por causa do jeito desajeitado de vestir-se, chamou atenção dela: uma camisa preta com a imagem de seu instrumento musical predileto. Ao que parece, Ela achou interessante a ideia; na verdade, pouco se pode saber se de fato  gostou da camisa ou se foi algum pretexto para conversar com aquela figura em formação. De qualquer forma, tiveram sua primeira conversa acompanhados por seus respectivos amigos. Falaram de sua camisa, de seus sonhos comuns que se completavam sem eles mesmos quererem ou saberem. Ela e sua avidez em agradar seu namorado, Ele e sua avidez por uma sólida carreira acadêmica. E se encontraram mais vezes, e foi nascendo uma incrível amizade entre eles, a ponto de, de fato, se reconhecerem de longe e se conhecerem pelo olhar.

Um dia Ele descobriu-se apaixonado por Ela. Amor complicado. Ela tinha um namorado que, de certa forma, era o Oposto d’Ele. E Ele, mui cortês que era, guardou isso consigo, como num baú dentro de seu coração, até que um dia, num momento, talvez não tão propício de crise d’Ela com seu namorado, o Oposto, foram se aproximando bem mais, conversando bem mais, andando juntos bem mais vezes. Ele se declarou admirador e amante de seu jeito. Ela, talvez balançada, recusou a proposta, porque pensava ainda no Oposto d’Ele.

E Ele chorou. Amargou a sua derrota no campo dos sentimentos… Talvez a sua primeira derrota enquanto vero amante, já que era a primeira vez, depois de outros “amores” que de fato se encontrava com aquela que o faria perder a noção de tempo e espaço e, provavelmente aquela com que prazerosamente envelheceria junto. E Ela soube de seu amor, do qual aparentemente fez pouco caso; Ele mergulhou na sua individualidade, academicizou-se, construiu novas coisas, novas possibilidades, outros amores, seguindo o curso de sua vida traçado pelas próprias mãos. Ela fazia o mesmo. E Se distanciaram por um longo período, conhecendo outras gentes, mas nunca deixando de se falarem. Ela e sua leveza, Ele e seu amor, agora rubro de vergonha ao pensar-se tão bobo por achar-se apaixonado. Por longo tempo estiveram assim, envergonhados um do outro. Já não se viam simplesmente como grandes amigos, apesar de assim se tratarem, isso era fato.

O tempo passou, as fotos amarelaram e eles se encontraram novamente, feridos e felizes. Feridos por seus respectivos amores, Ela em crise com o Oposto e Ele de namoro acabado; felizes ambos por suas veias acadêmicas estarem se alargando em possíveis campos de trabalho. De grandes apaixonados, agora se viam como grandes amigos, consolando um ao outro.

Ela se apaixonou por ele. Um ano de atraso e Ela despertou aquele amor envolvente e indulgente que n’Ele se tinha adormecido. E juntos viveram uma incrível impossibilidade de amor. Ela estava dividida pela possível confusão de sentimentos pelo seu amigo mais próximo e pelas belas frases de reconquista de espaço do Oposto. Os frutos do tempo agora eram visíveis. Dessa vez, Ele iria estudar fora e qualquer possibilidade de algo que o prendesse à sua terra natal era racionalmente e radicalmente descartada. Ela via tudo isso imóvel sem saber o que fazer; se se ligasse ao Oposto ou se esperasse a volta d’Ele, que segundo Ele, não havendo uma esperança no presente, poderia não haver mais. E depois de uma dura batalha Ela se decidiu. Decidiu ficar como estava, ligada ao Oposto, que venceu todas as esperanças de Ela e Ele se encontrarem de novo. Se amarem.

Ele, mais uma vez, chorou. Ele a queria, mas mais uma vez, amargou a sua derrota no campo dos sentimentos, só que dessa vez, estava mais conformado com a decisão dela. Estava mais plástico, pois seu último dorido relacionamento o tinha feito assim. E assim se fez. Ele partiu, mas se reencontraram no portão de embarque; Ele, Ela e o Oposto, esse último como que protegendo a sua mais nova aquisição e orgulhando-se da sua mais nova vitória. Ele se foi.

Por um capricho do destino, Ele teve de voltar de sua estadia fora. E se encontraram mais uma, duas vezes. Momento significativo para Ele, pois estava sendo o Orador de sua turma, numa cerimônia dispensável para Ele, tamanha austeridade para essas coisas, particularmente por estar insatisfeito com os rumos de sua turma. Na verdade, isso o fazia austero com a cerimônia. Mas Ele estava lá. Ele e seus amigos do peito, aqueles que Ele granjeou com a sua conversa, com seus argumentos e com seus sentimentos; eles estavam lá! E Ela também.

Num outro dia, por mais um capricho do destino, trocaram seu primeiro beijo, numa atitude louca e desvairada de olhos que se encontraram diversas vezes e bocas que já se olhavam, mas que, por questões éticas nunca se encontraram. Arnaldo Jabor poderia se orgulhar desse momento de desvairo, mas a sua paulicéia só o faz contemplar o perigo de “o amor virar amizade” e “do sexo virar paixão”. Ele e Ela, muito pelo contrário, faziam com que seu amor perpetuasse em seus corações com aquele beijo apaixonado,  numa noite fria em que os meios puderam finalmente explicar o fim. E, de fato, foi o visível fim das possibilidades de (re)volta. Ele partiria na manhã seguinte. E debaixo de um telefonema, Ela comunicava na mesma noite a sua decisão oficial: Seria, mais uma vez, do Oposto.

Conformado, plástico, diferente das outras vezes, Ele não chorou. Não se sabe por que afinal. Creio que suas lágrimas de amor apaixonado se haviam secado dando lugar ao início da saudade do que não foi. Ele não chorou mais por Ela, mas ao que parece, Ela chorou por Ele…

Ninguém faz ideia do tempo que o tempo pode roubar de duas almas, que se descobriram amantes. E quem vem lá?

Os dois seguem suas vidas, agora distintas. Ele continua se diferenciando dos outros e isso se torna cada vez mais forte, apesar de continuar vívido e plácido. Está menos solitário e mais taciturno, como se estivesse sendo moldado pelo tempo e para o tempo. Não chora por si mesmo, agora chora pelos outros. Vive uma nova vida, um caminho e um momento tão seu que parece uma estrada solitária. Tudo o que quis agora está em suas mãos, numa estrada paralela à d’Ela, onde segundo Ele, não há possibilidades de atalhos. Nessas linhas paralelas, talvez não haja mais encontros em um dado ponto. Vestem seus hábitos e cuidam de si mesmos. Ela continua em sua terra, com suas ocupações lívidas, leves e francas, apesar de seus constantes desentendimentos consigo mesma e seus escritos… Ele se ocupa cada vez mais, não se sabe ao certo se para encorpar sua nova experiência num outro mundo, se para esquecer parte de seu passado. Talvez a primeira opção, já que desse passado Ele guarda as mais coloridas e presente-remotas lembranças. Seus amigos estão nesse passado-presente e Ela também. Não há muito do que reclamar. Ele deseja aproveitar ao máximo o que está em suas mãos; deseja que Ela faça o mesmo. Os destinos forma traçados. A última noite foi o marco.

Quem dirá do futuro? Esse cronista não se atreve a dar fim na história de ambos, agora individual, dessas duas figuras Shakespearianas que são tão semelhantes e paradoxais aos seus correspondentes Romeu e Julieta. Os últimos morreram de amor, abraçados, envenenados e apaixonados; os primeiros ainda vivem amando a si mesmos, mas abraçados pelo tempo que os uniu numa história confusa e tardia.

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