Tags

, , ,

12_MHG_RIO_onibus_mat

Monografar, pensar, monografar… Esse tem sido o meu ciclo de vida nos últimos meses. Escrever sobre memória, escrever minhas memórias, memoriar minha escrita. Foi o que aconteceu no ônibus um dia desses, quando eu estava indo pra casa, saindo da faculdade; passei a catraca e com o olhar entrei numa busca frenética por um lugar vazio, de preferência perto da janela (quem tem rinite sabe do que eu estou falando). Zás, encontrei o lugar perfeito; não só ele mas um monte de outros lugares, mas aquele lá atrás, perto da janela: perfeição.
Cheguei, sentei, relaxei.

Tudo como eu planejei secretamente naquele momento em que estava na parada esperando-o. Para coroar o momento, tiro um livro da bolsa, abro na página marcada e começo a ler. Começo a viajar, memoriar a escrita no tema do livro: blog.
Nem vi o tempo passar, de repente o ônibus pára: desce uma pessoa que eu não tinha visto na minha ânsia por um lugar perto da janela, minha ex- professora do jardim.
Ela me iniciou nas artes educacionais, na leitura do mundo das palavras, enquanto meus pais exercitavam comigo a leitura da palavra-mundo. Experiência significativa para um jovem que deixa seu curso universitário rumo à “vida adulta” do trabalho.

Relembrei os momentos em que a “tia” abraçava cada um de seus pupilos , saudando-os no início das manhãs, e despedindo-se com um beijinho no fim da aula; lembrei dos colegas de turma, pequeninos como eu que hoje nem sei por onde andam. Rememorei os dias em que chorava a dor da separação de meus pais vendo-os partir deixando-me aos cuidados de minha “carrasca” professora.
O ônibus parou; ela desceu.

Uma alma cansada de mais um dia de trabalho em alguma repartição pública, fatigada pelo estresse do dia; ombros caídos sob a compressão enfastiada da luta anterior acumulada durante os anos, ainda que mascarada pelo trio gloss, sombra e blush unidos pela manhã, retocados à tarde, desgastados às dezoito.
Olhos cansados, fascinantes ainda que sem brilho, mas revelador de lembranças já esquecidas de uma infância que não volta mais.

Fascinante vida dura, decadente, inglória; que guarda nos fios prateados das vastas e complexas madeixas as marcas do tempo. Fascinante.
Eu a vi descer, sem tê-la visto subir, eu a vi descer do ônibus e a imaginei em casa á sucumbir ao cansaço, provavelmente sem alguém pra lhe esperar, talvez a sua mãe ou um cachorro pra receber no portão, talvez… quem sabe? Pela mesma janela que ansiei, vi-a descer sem ao menos ter tido a chance de falar com ela…

Quem sabe tudo isso não é uma metáfora da existência do ser? Quem tem olhos para ler a vida, que a leia…

Anúncios