Uma viola e sua representação para o meio cultural cristão...

Uma viola e sua representação para o meio cultural cristão...

Queridos amigos leitores deste blog,

tenho a maior satisfação em estar transcrevendo este texto, que não é meu e sim do Pr. Carlinhos Veiga, do qual sou um grande admirador, pois ele me trouxe um acalento e um grande apoio para minhas realizações como músico. Alguns de vocês já devem saber que canto numa banda de rock, mas que ao mesmo tempo, sou aficcionado por música brasileira e sempre que posso (re)arranjo algumas músicas masi tradicionais baseando-me nessa temática.

O intúito deste texto é mais didático do que crítico, pois a argumentação proposta baseia-se n’algumas experiências vividas pelo próprio Pr. Carlinhos Veiga como músico e pastor de uma igreja tradicional (Igreja Presbiteriana) nos momentos de louvor público. Ora, devo deixar você tirar suas próprias conclusões sobre os exemplos e sobre a música que é retratada aqui, peço porém que, ao fim da leitura, venha a fazer uma refexão comigo: o que nós como músicos ou “ministros de louvor” temos dedicado a Deus, que nos expresse genunamente e culturalmente? O que temos feito para modificar um cenário de palavrinhas mágicas na música cristã?

Bem, deixo vocês com o meu ilustre amigo Carlinhos, já que em matéria de brasilidade na música cristã, este tem mais “cacife” para palestrar do que eu.

Abraço Forte!!!

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Sempre que eu era convidado a  ministrar cursos e palestras sobre o tema “Adoração e cultura brasileira” já sabia que ia chegar aquele momento constrangedor onde alguém perguntaria: “mas, na sua igreja é assim?!?!” Eu ficava ora vermelho de vergonha, ora amarelo de sem graça e respondia entre os dentes: “Não, ou pelo menos ainda não”.

Confesso que nesses momentos me sentia um farsante, propondo aos meus ouvintes realidades que eu mesmo não havia experimentado. Mas Deus tem me permitido algumas experiências novas e diferentes nos últimos tempos. Depois de quatro anos de muito trabalho, plantamos uma nova igreja em Brasília. Ela tem sido o nosso laboratório musical. Digo “nosso”, porque nos últimos anos tenho trabalhado com uma banda fixa, no trabalho artístico que realizo paralelo ao pastorado. E os músicos que me acompanham já ouviram muitas vezes as mesmas palestras e abraçaram a causa. A maioria deles participa comigo da mesma comunidade e isso é um bom princípio.

Não somos xiitas, como se os ritmos nacionais fossem os únicos aceitos em nosso meio. Não é assim! Temos buscado uma postura equilibrada nessa área, com um repertório que inclui hinos tradicionais, cânticos “pop-gospel”, cânticos antigos, mas principalmente músicas que tragam sinais característicos da nossa musicalidade brasileira. Até na formação do grupo musical temos desenvolvido uma nuance instrumental própria: viola caipira, sanfona e percussões, convivendo com os já tradicionais violão, baixo, flauta e teclado.

Motivados pelo Léo Barbosa, ministro de música da igreja, começamos a nos reunir para conversar sobre diversos aspectos da adoração e da arte, bem como sobre o evangelho e a cultura. Foram encontros ricos, com um olhar bem atento para a Palavra de Deus e debaixo de muito de temor e tremor. Certo dia, num desses encontros, alguém da equipe de músicos lamentou: “mas eu não sei nem mesmo a diferença entre um baião e um xote…” Foi quando nos demos conta de que precisávamos trabalhar também outros temas, porque, por incrível que pareça, a igreja brasileira desconhece a música brasileira. A ignorância quanto ao rico léxico rítmico nacional não é simplesmente por uma opção deliberada; é, antes de tudo, por uma falta de opção em nossas comunidades. O povo canta o que canta porque nada diferente lhes é oferecido como opção. A cultura brasileira sempre foi tratada como uma inimiga do Evangelho e por isso negada pela igreja. Mas essa compreensão não é verdadeira; ao contrário, é falsa e equivocada. Toda cultura traz traços do “divino” e traços da “queda”, indistintamente. Por isso a cultura precisa ser resgatada e não rechaçada, valorizando suas características que revelam o traço do divino e “convertendo” suas características marcadamente frutos da queda.

Qual foi a nossa reação diante desse quadro? Decidimos nos reunir para ouvir música e conversar sobre ela, estudando a história dos ritmos, dos instrumentos, das mutações sofridas pela música popular, etc. Selecionamos CDs e DVDs para discutirmos sobre ritmos, utilização dos instrumentos, estilos, como se toca em um grupo com vários instrumentos, etc. Assim, fomos adentrando num espaço totalmente desconhecido pela maioria. Conhecemos histórias, revendo equívocos e aprendendo novos ritmos. Alguns irmãos, que se converteram na juventude, começaram a reencontrar suas raízes familiares, a sonoridade, os jeitos e as cores que lhes eram familiares na infância e que haviam sido perdidos com o advento da nova religião. Até músicas de nossa própria autoria começaram a ser esboçadas nesses encontros de audição e conversa, numa criação coletiva, verdadeira gênese de novas canções de adoração comunitária surgida a partir da caminhada do próprio grupo com o nosso Deus e com a criatividade que Ele mesmo nos presenteou.

No primeiro encontro, estudamos alguns ritmos da música nordestina, com o Léo Barbosa, diácono da igreja, ministro de música, professor de percussão e músico profissional. Depois pude falar sobre a música regional do centro-oeste brasileiro, incluindo o Brasil caipira, um dos assuntos pelos quais me interesso bastante. Agora será a vez do samba e seus diversos estilos, ministrado por dois professores do Clube do Choro de Brasília: um cavaquinista e um violononista 7 cordas.

Hoje, tenho um problema a menos e um prazer a mais na vida. O problema é o de ter que responder negativamente à pergunta: “mas na sua igreja é assim?”. O prazer é ver um grupo de músicos que ama ao Senhor Jesus e à Sua Palavra, caminhando juntos no anseio de resgatar esse maravilhoso presente dos céus para a igreja brasileira: sua própria cultura. Estamos ainda longe do ideal, mas o que já vivemos me faz sonhar!

 

Carlinhos Veiga é casado com Cláudia Barbosa há 22 anos; é pai de Pedro, Anna Carolina e Cezar. Pastoreia a Igreja Presbiteriana do Lago Norte em Brasília. Ligado à missão Mocidade Para Cristo há mais de 20 anos faz parte do seu Conselho Diretor. Também participa na diretoria nacional da Fraternidade Teológica Latino-Americana. Músico, compositor e violeiro, tem 6 CDs solos gravados. Seu trabalho é voltado ao resgate da cultura brasileira.

Este texto foi publicado originalmente no site “Cristianismo Criativo”. Está disponivel no link: http://www.cristianismocriativo.com.br/index.php?option=com_content&task=view&id=177&Itemid=31.

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